segunda-feira, 9 de abril de 2012

O que é bom gosto, afinal?

Essa postagem de hoje, desse blog cada vez mais abandonado, vai ser sobre estética. Sobre essa coisa altamanete subjetiva que chamamos bom gosto. Bom pra quem? Pra quem o tem, oras!!  E assim é a estética timorense, bonita pra eles, como ocorre com todos os povos, pois cada um tem seu padrão de beleza, embora "belo" seja um valor universal.  Aqui, "básico" é feio, sem graça, destituído de atrativos. Bonito é colorido, enfeitado, com estampas e cores fortes, bordados e apliques, brilhos, plumas e paetês. De preferência, tudo junto. Na frente das lojas, estão as roupas mais chamativas: vestidos pink de tafetá balonê, que fariam a gente se sentir  um Sonho de Valsa ao envergá-los, são cobiçadíssimos, desejados por dez em cada nove mulheres timorenses. Estampas floridas são misturadas às de animais, e ainda recebem rendas ou apliques. Coloridos, claro, que duma cor só ficam muito sem graça.

Mas, a verdadeira estética timorense não aparece nas roupas, aparece nos veículos. Vejam as fotos abaixo, tiradas em um táxi daqui: observem como o carro está todo forrado com os tradicionais tecidos coloridos timorenses, os tais; os detalhes pintados em verde; a faixa verde que cobre metade do parabrisa; os muitos espelhinhos retrovisores; as bandeirinhas e o coração pendurados, os inumeros sachês de banheiro para 'perfumar'. Pena que não dá pra ver os vidros laterais, cobertos por uma película 'marmorizada'... Ainda bem que não dá pra ouvir a música: eles adoram a música brasileira - a que conhecem, porque o que chega aqui, com estrondoso sucesso, são funks de popozuda e quebra barraco, dança do créu, ai se eu te pego, e baixarias ainda piores... gostam de música 'alegre' os timorenses, não querem saber de bossa nova, não.




O melhor mesmo são os ônibus e as vans que fazem o transporte coletivo local. As vans são chamadas de microlets e desafiam as leis da física: quem disse que duas matérias não ocupam o mesmo lugar no espaço nunca viu uma microlet pelas ruas de Dili! São também coloridíssimas, têm nomes, fotos de meninas bonitas em poses sexy e de jogadores de futebol - o Neymar, por exemplo, que tem seu corte de cabelo copiadissimo por aqui. As cores mais comuns são cor de rosa, vermelha, verde bandeira. Elas bem lembram as kombis que inspiraram Chico Science a escrever Rios, pontes e overdrives, com a fundamental diferença que brasileiro não senta no colo dos outros, ninguem viajava no teto da kombi e só quem ia pendurado na porta era o cobrador, anunciado o percurso do veículo " é Madalena, Imbiribeira, Bom Pastor, Beberibe". Aqui, a microlet transborda de gente por todo lado: arrumados em camadas por dentro, pendurados nas portas por fora, sentados em cima do teto. Pra completar, andam numa velocidade vertiginosa, e fazem as maiores barbaridades no trânsito. Não admira que andar nelas seja contra os protocolos de segurança da ONU...



Os ônibus, então... São do tamanho dos nossos microônibus e ainda mais liberalmente decorados que as microlets, completamente pintados, com o motivo que aprouver aos donos, transportam de tudo: além de gente, motos penduradas, cestas de hortifruti, feixes de lenha, cabritos em pé no teto, gaiolas de galinhas, porcos e leitões pendurados de cabeça pra baixo. Estou pensando em fazer um catálogo de fotos deles. Atravessam o país em percursos de durações variadas, entre a capital e as sedes dos distritos, no interior. Vejam essas fotos e imaginem-se por 6-8 horas a fio dentro de um veículo desses, sacolejando montanha acima e buracos adentro, à beira do precipício, à margem do riacho que vão tentar atravessar, com muita fé em Deus e um eventual empurrãozinho dos passageiros.... Vai encarar?








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