sábado, 26 de maio de 2012

Copo vazio ou cheio de ar?

Já faz 4 meses que estou aqui. O tempo voa e chegou a hora de alguns partirem. Hoje foram-se todos os policiais portugueses que estavam aqui. Farão falta. Os da polícia regular ficaram um ano, treinando a polícia do Timor. Aqui no hotel eles criaram uma comunidade, que fazia a gente se esquecer que está longe da família e dos amigos, morando em quarto de hotel. Bastava descer para jantar, que se tinha uma festa: ótima companhia, rodas de viola, conversa leve e inteligente, muitas gargalhadas, brincadeiras saudáveis de gente essencialmente boa. Pais de família e profissionais competentes, que sabiam ser meninos de modo impagável. Havia ainda outros, da tropa de choque da polícia militar de lá, responsáveis por debelar brigas de gangue, conflitos coletivos e manifestações violentas em geral. Esses ficaram seis meses, não em hotéis mas no seu quartel. Excelentes pessoas e ótimas companhias, meninos grandes também, bons de dança e de copo. Voltaram todos para suas vidas, suas rotinas, suas famílias, cujos nomes traziam tatuados. Pediam pra não falar sobre eles, para a saudade não doer ainda mais. Outros chegaram para substituí-los na Missão da ONU, vieram no mesmo avião fretado pelo governo de Portugal que levou os nossos amigos. Chegar e partir são só dois lados da mesma viagem...

Talvez por isso tenho andado azeda sobre a Missão. Começo a ver o copo vazio, ao invés de cheio de ar. Tudo na vida tem prós e contras. Vir a uma Missão de Paz da ONU num país pós conflito é uma aventura e tanto. Os prós são muitos: conhecemos países distantes, convivemos com gente de várias culturas e idiomas, trabalhamos na mais global das instituições, contribuímos diretamente para a construção de democracias estáveis, de nações aptas a buscar o próprio desenvolvimento, para melhores condições de vida de pessoas cuja capacidade de suportar nos parece infinda... Mas os contra são igualmente numerosos: nos afastamos das famílias e amigos e nos jogamos no desconhecido, sofremos choques culturais cotidianos, nos expomos a riscos e doenças, a viver em condições tão precárias que seriam impensáveis nos nossos países, sofremos com as separações constantes.

Viver no terceiro país mais pobre do mundo é conviver com outro estágio civilizatório . Passei o primeiro mês pensando em limpar cada coisa em que pousava os olhos. Sedes de órgãos nacionais nunca viram um pano de chão, muito menos nos móveis. Em cada canto triunfa, soberana, uma grossa teia de aranha, um grude de sujeira, um novelo de poeira. Usar um banheiro é sempre uma experiência mística: haja capacidade de transcender! Num ministério ou numa autarquia federal, vamos ao  banheiro e estamos no garimpo. Quem nunca viu uma ratazana atravessar o restaurante, ou mosca na comida, que atire a primeira pedra. Como no mundo todo, entra-se na modernidade pela porta do consumo; têm motos, celulares, parabólicas, mas vivem em barracos. Enquanto as crianças brincam na lama com os porcos, os adultos dormem em catres, com as galinhas a bicar - lhes a cara.

Penso no meu pai e em como ele detestaria o jeitinho timorense de ser, a falta de postura e compostura, de seriedade e de dedicação, de entusiasmo. Muito pouco funciona e quase tudo, funciona mal.  Quando se propõe uma nova forma de fazer, ouve-se: “não, dá trabalho!” A comida está demorando demais ou a internet não funciona? “Espera”, “tenta de novo”! Nas lojas e supermercados, os atendentes “cansados”, se sentam no chão, ou cochilam em qualquer canto, a qualquer hora. Não importa se é cerimônia ou evento informal, se espalham na cadeira como se estivessem em casa. Fumam muito, em qualquer hora ou lugar, fazendo-nos todos fumantes passivos, sempre tossindo e congestionados. Diante da cidade inundada por um ciclone tropical, dão de ombros: ‘isso é o Timor”. E eu zangada com o que me parece falta de amor à própria terra, penso: " não isso não é o Timor; o Timor está assim, mas não precisa ser assim!”

Penso na geração de jovens entre 18 e 15 anos, que aí está: crianças durante uma dura guerra de resistência, passaram o que o diabo duvida. Cresceram em campos de refugiados e orfanatos, sem ninguém que lhes ensinasse nada que preste. Proibidos de falar português e tetum (o dialeto local), foram forçados a aprender indonésio e, depois da ONU, o inglês. Não têm profissão, não sabem nenhum ofício. O governo dos tempos de paz ainda não lhes ofereceu nenhuma oportunidade, nem de qualificação, nem de emprego. Têm toda a vida diante de si e estão tendo filhos. Não têm sequer presente, terão futuro? Ou o darwinismo vai fazer deles uma geração perdida?

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