Talvez
por isso tenho andado azeda sobre a Missão. Começo a ver o copo vazio, ao invés
de cheio de ar. Tudo na vida tem prós e contras. Vir a uma Missão de Paz da ONU
num país pós conflito é uma aventura e tanto. Os prós são muitos: conhecemos países distantes, convivemos com gente
de várias culturas e idiomas, trabalhamos na mais global das instituições,
contribuímos diretamente para a construção de democracias estáveis, de nações aptas
a buscar o próprio desenvolvimento, para melhores condições de vida de pessoas
cuja capacidade de suportar nos parece infinda... Mas os contra são igualmente numerosos: nos afastamos das famílias e
amigos e nos jogamos no desconhecido, sofremos choques culturais cotidianos, nos
expomos a riscos e doenças, a viver em condições tão precárias que seriam impensáveis
nos nossos países, sofremos com as separações constantes.
Viver
no terceiro país mais pobre do mundo é conviver com outro estágio civilizatório
. Passei o primeiro mês pensando em limpar cada coisa em que pousava os olhos.
Sedes de órgãos nacionais nunca viram um pano de chão, muito menos nos móveis.
Em cada canto triunfa, soberana, uma grossa teia de aranha, um grude de
sujeira, um novelo de poeira. Usar um banheiro é sempre uma experiência mística:
haja capacidade de transcender! Num ministério ou numa autarquia federal, vamos
ao banheiro e estamos no garimpo. Quem
nunca viu uma ratazana atravessar o restaurante, ou mosca na comida, que atire
a primeira pedra. Como no mundo todo, entra-se na modernidade pela porta do
consumo; têm motos, celulares, parabólicas, mas vivem em barracos. Enquanto as
crianças brincam na lama com os porcos, os adultos dormem em catres, com as
galinhas a bicar - lhes a cara.
Penso
no meu pai e em como ele detestaria o jeitinho timorense de ser, a falta de
postura e compostura, de seriedade e de dedicação, de entusiasmo. Muito pouco
funciona e quase tudo, funciona mal. Quando
se propõe uma nova forma de fazer, ouve-se: “não, dá trabalho!” A comida está
demorando demais ou a internet não funciona? “Espera”, “tenta de novo”! Nas
lojas e supermercados, os atendentes “cansados”, se sentam no chão, ou cochilam
em qualquer canto, a qualquer hora. Não importa se é cerimônia ou evento
informal, se espalham na cadeira como se estivessem em casa. Fumam muito, em
qualquer hora ou lugar, fazendo-nos todos fumantes passivos, sempre tossindo e
congestionados. Diante da cidade inundada por um ciclone tropical, dão de
ombros: ‘isso é o Timor”. E eu zangada com o que me parece falta de amor à
própria terra, penso: " não isso não é o Timor; o Timor está assim, mas não precisa
ser assim!”
Penso
na geração de jovens entre 18 e 15 anos, que aí está: crianças durante uma dura
guerra de resistência, passaram o que o diabo duvida. Cresceram em campos de
refugiados e orfanatos, sem ninguém que lhes ensinasse nada que preste. Proibidos
de falar português e tetum (o dialeto local), foram forçados a aprender indonésio
e, depois da ONU, o inglês. Não têm profissão, não sabem nenhum ofício. O
governo dos tempos de paz ainda não lhes ofereceu nenhuma oportunidade, nem de
qualificação, nem de emprego. Têm toda a vida diante de si e estão tendo
filhos. Não têm sequer presente, terão futuro? Ou o darwinismo vai fazer deles
uma geração perdida?
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