sábado, 26 de maio de 2012

Copo vazio ou cheio de ar?

Já faz 4 meses que estou aqui. O tempo voa e chegou a hora de alguns partirem. Hoje foram-se todos os policiais portugueses que estavam aqui. Farão falta. Os da polícia regular ficaram um ano, treinando a polícia do Timor. Aqui no hotel eles criaram uma comunidade, que fazia a gente se esquecer que está longe da família e dos amigos, morando em quarto de hotel. Bastava descer para jantar, que se tinha uma festa: ótima companhia, rodas de viola, conversa leve e inteligente, muitas gargalhadas, brincadeiras saudáveis de gente essencialmente boa. Pais de família e profissionais competentes, que sabiam ser meninos de modo impagável. Havia ainda outros, da tropa de choque da polícia militar de lá, responsáveis por debelar brigas de gangue, conflitos coletivos e manifestações violentas em geral. Esses ficaram seis meses, não em hotéis mas no seu quartel. Excelentes pessoas e ótimas companhias, meninos grandes também, bons de dança e de copo. Voltaram todos para suas vidas, suas rotinas, suas famílias, cujos nomes traziam tatuados. Pediam pra não falar sobre eles, para a saudade não doer ainda mais. Outros chegaram para substituí-los na Missão da ONU, vieram no mesmo avião fretado pelo governo de Portugal que levou os nossos amigos. Chegar e partir são só dois lados da mesma viagem...

Talvez por isso tenho andado azeda sobre a Missão. Começo a ver o copo vazio, ao invés de cheio de ar. Tudo na vida tem prós e contras. Vir a uma Missão de Paz da ONU num país pós conflito é uma aventura e tanto. Os prós são muitos: conhecemos países distantes, convivemos com gente de várias culturas e idiomas, trabalhamos na mais global das instituições, contribuímos diretamente para a construção de democracias estáveis, de nações aptas a buscar o próprio desenvolvimento, para melhores condições de vida de pessoas cuja capacidade de suportar nos parece infinda... Mas os contra são igualmente numerosos: nos afastamos das famílias e amigos e nos jogamos no desconhecido, sofremos choques culturais cotidianos, nos expomos a riscos e doenças, a viver em condições tão precárias que seriam impensáveis nos nossos países, sofremos com as separações constantes.

Viver no terceiro país mais pobre do mundo é conviver com outro estágio civilizatório . Passei o primeiro mês pensando em limpar cada coisa em que pousava os olhos. Sedes de órgãos nacionais nunca viram um pano de chão, muito menos nos móveis. Em cada canto triunfa, soberana, uma grossa teia de aranha, um grude de sujeira, um novelo de poeira. Usar um banheiro é sempre uma experiência mística: haja capacidade de transcender! Num ministério ou numa autarquia federal, vamos ao  banheiro e estamos no garimpo. Quem nunca viu uma ratazana atravessar o restaurante, ou mosca na comida, que atire a primeira pedra. Como no mundo todo, entra-se na modernidade pela porta do consumo; têm motos, celulares, parabólicas, mas vivem em barracos. Enquanto as crianças brincam na lama com os porcos, os adultos dormem em catres, com as galinhas a bicar - lhes a cara.

Penso no meu pai e em como ele detestaria o jeitinho timorense de ser, a falta de postura e compostura, de seriedade e de dedicação, de entusiasmo. Muito pouco funciona e quase tudo, funciona mal.  Quando se propõe uma nova forma de fazer, ouve-se: “não, dá trabalho!” A comida está demorando demais ou a internet não funciona? “Espera”, “tenta de novo”! Nas lojas e supermercados, os atendentes “cansados”, se sentam no chão, ou cochilam em qualquer canto, a qualquer hora. Não importa se é cerimônia ou evento informal, se espalham na cadeira como se estivessem em casa. Fumam muito, em qualquer hora ou lugar, fazendo-nos todos fumantes passivos, sempre tossindo e congestionados. Diante da cidade inundada por um ciclone tropical, dão de ombros: ‘isso é o Timor”. E eu zangada com o que me parece falta de amor à própria terra, penso: " não isso não é o Timor; o Timor está assim, mas não precisa ser assim!”

Penso na geração de jovens entre 18 e 15 anos, que aí está: crianças durante uma dura guerra de resistência, passaram o que o diabo duvida. Cresceram em campos de refugiados e orfanatos, sem ninguém que lhes ensinasse nada que preste. Proibidos de falar português e tetum (o dialeto local), foram forçados a aprender indonésio e, depois da ONU, o inglês. Não têm profissão, não sabem nenhum ofício. O governo dos tempos de paz ainda não lhes ofereceu nenhuma oportunidade, nem de qualificação, nem de emprego. Têm toda a vida diante de si e estão tendo filhos. Não têm sequer presente, terão futuro? Ou o darwinismo vai fazer deles uma geração perdida?

segunda-feira, 9 de abril de 2012

O que é bom gosto, afinal?

Essa postagem de hoje, desse blog cada vez mais abandonado, vai ser sobre estética. Sobre essa coisa altamanete subjetiva que chamamos bom gosto. Bom pra quem? Pra quem o tem, oras!!  E assim é a estética timorense, bonita pra eles, como ocorre com todos os povos, pois cada um tem seu padrão de beleza, embora "belo" seja um valor universal.  Aqui, "básico" é feio, sem graça, destituído de atrativos. Bonito é colorido, enfeitado, com estampas e cores fortes, bordados e apliques, brilhos, plumas e paetês. De preferência, tudo junto. Na frente das lojas, estão as roupas mais chamativas: vestidos pink de tafetá balonê, que fariam a gente se sentir  um Sonho de Valsa ao envergá-los, são cobiçadíssimos, desejados por dez em cada nove mulheres timorenses. Estampas floridas são misturadas às de animais, e ainda recebem rendas ou apliques. Coloridos, claro, que duma cor só ficam muito sem graça.

Mas, a verdadeira estética timorense não aparece nas roupas, aparece nos veículos. Vejam as fotos abaixo, tiradas em um táxi daqui: observem como o carro está todo forrado com os tradicionais tecidos coloridos timorenses, os tais; os detalhes pintados em verde; a faixa verde que cobre metade do parabrisa; os muitos espelhinhos retrovisores; as bandeirinhas e o coração pendurados, os inumeros sachês de banheiro para 'perfumar'. Pena que não dá pra ver os vidros laterais, cobertos por uma película 'marmorizada'... Ainda bem que não dá pra ouvir a música: eles adoram a música brasileira - a que conhecem, porque o que chega aqui, com estrondoso sucesso, são funks de popozuda e quebra barraco, dança do créu, ai se eu te pego, e baixarias ainda piores... gostam de música 'alegre' os timorenses, não querem saber de bossa nova, não.




O melhor mesmo são os ônibus e as vans que fazem o transporte coletivo local. As vans são chamadas de microlets e desafiam as leis da física: quem disse que duas matérias não ocupam o mesmo lugar no espaço nunca viu uma microlet pelas ruas de Dili! São também coloridíssimas, têm nomes, fotos de meninas bonitas em poses sexy e de jogadores de futebol - o Neymar, por exemplo, que tem seu corte de cabelo copiadissimo por aqui. As cores mais comuns são cor de rosa, vermelha, verde bandeira. Elas bem lembram as kombis que inspiraram Chico Science a escrever Rios, pontes e overdrives, com a fundamental diferença que brasileiro não senta no colo dos outros, ninguem viajava no teto da kombi e só quem ia pendurado na porta era o cobrador, anunciado o percurso do veículo " é Madalena, Imbiribeira, Bom Pastor, Beberibe". Aqui, a microlet transborda de gente por todo lado: arrumados em camadas por dentro, pendurados nas portas por fora, sentados em cima do teto. Pra completar, andam numa velocidade vertiginosa, e fazem as maiores barbaridades no trânsito. Não admira que andar nelas seja contra os protocolos de segurança da ONU...



Os ônibus, então... São do tamanho dos nossos microônibus e ainda mais liberalmente decorados que as microlets, completamente pintados, com o motivo que aprouver aos donos, transportam de tudo: além de gente, motos penduradas, cestas de hortifruti, feixes de lenha, cabritos em pé no teto, gaiolas de galinhas, porcos e leitões pendurados de cabeça pra baixo. Estou pensando em fazer um catálogo de fotos deles. Atravessam o país em percursos de durações variadas, entre a capital e as sedes dos distritos, no interior. Vejam essas fotos e imaginem-se por 6-8 horas a fio dentro de um veículo desses, sacolejando montanha acima e buracos adentro, à beira do precipício, à margem do riacho que vão tentar atravessar, com muita fé em Deus e um eventual empurrãozinho dos passageiros.... Vai encarar?








quinta-feira, 22 de março de 2012

O primeiro turno das eleições presidenciais : uma demonstração de civismo

O primeiro turno das eleições presidenciais timorenses finalmente aconteceu. No  reino da precariedade absoluta, o povo deu um show de civismo, além de mostrar uma resiliência ímpar. Foram muitos os percalços e imprevistos, mas nada impediu que as eleições ocorressem em paz. Começou pelo mau tempo. Num país onde a infra-estrutura é precária, São Pedro não ajudou nem um pouco: chuva forte e ventania arrancaram telhados e fizeram com que faltasse luz na maior parte do país. Eu mesma, sem ar condicionado, quase não dormi - e foi preciso acordar às cinco da manhã para estar às seis na seção eleitoral, monitorando a organização previa dos trabalhos, já que a seção abriria para o povo votar das sete da manhã às três da tarde. Pois, acreditem que os trabalhos foram iniciados à luz de velas, enquanto o sol nascia! Mais ainda,aqui voto não é obrigatório. Mesmo assim, as pessoas andavam quilometros para estar na fila às sete da manhã. Chovia bastante, mas os eleitores esperavam na fila pra votar, às vezes de forma mais desorganizada, quando a polícia local intervinha para ajudar a organizar os trabalhos. Faltou boletim de voto no meio da manhã em algumas zonas eleitorais, mas ainda assim, as pessoas esperaram calmamente os boletins chegarem para votar. As escolas públicas, como no Brasil, foram escolhidas como locais de votação. Muitas estão em péssimo estado de conservação, com janelas quebradas, banheiros inacreditáveis de tão sujos e esculhambados, sem energia, mas ainda assim, a votação ocorreu de forma ordeira e pacífica, com os eleitores, exibindo orgulhosamente o dedo sujo da tinta que indicava que eles já haviam votado.








Ao final da votação, veio a apuração. Vagarosa, mas calma e ordeira. Em vários locais, o povo pediu pra ver a apuração, e a contagem dos votos saiu das salas para as varandas das escolas. Controle social,  da melhor qualidade: o que acontece às vistas de toda a gente fica a salvo de manipulações, fraudes, subterfúgios. A contagem dos votos foi aberta, pra quem quisesse ver. Quando havia votos cuja validade era duvidosa, eles eram devidamente encaminhados para a decisão da Comissão Nacional de Eleições, cujos trabalhos monitorei. A contagem entrou pela noite a dentro. Na zona eleitoral onde cobri a abertura e o encerramento da votação, às onze da noite ainda estavam contando a terceira das seis urnas. E o povo lá, participando. Foi bonito de ver.







Os observadores internacionais que vieram cobrir as eleições - da Comunidade dos Países de Lingua Portuguesa, da Austrália, da China e  Japão, dos EUA - escreveram que o processo eleitoral timorense decorreu de acordo com os princípios do Estado Democrático de Direito.



Os problemas ocorreram na contabilização dos votos. A contagem aqui obedece a um sistema de pirâmide: contam-se os votos das zonas eleitorais, após misturarem-se os votos de todas as urnas de todas as seções. A contagem é registrada numa ata e todas as atas dos centros de votação são somadas, apurando-se as atas dos distritos e, por fim a ata nacional, que contabiliza as somas dos distritos. aí a coisa ficou complicada e vi a hora do caldo engrossar. É que apareceu a fragilidade das instituições, onde seus membros não tiveram coragem de exercer suas atribuições institucionais  e legais, e levaram os problemas para serem resolvidos na arena política. Democracia também se aprende, e as instituições daqui deverão se fortalecer com o tempo e a prática. Ainda teremos segundo turno dia 17 de abril. Mais ainda, as eleições parlamentares, que são as mais sensíveis, ocorrem no segundo semestre. De qualquer modo, o resultado foi anunciado ontem às nove da noite, pela Comissão Nacional de Eleições, em coletiva de imprensa, e o país amanheceu em paz.



sexta-feira, 16 de março de 2012

O Timor Leste não é o Vietnam

Já escrevi aqui que, quando o Timor Leste se tornou independente de Portugal em 1974, a Indonésia do ditador Sukharno anexou o país, sob os auspícios dos EUA e do o ‘pacificador’ Henry Kissinger, que temiam um ‘novo Vietnam’ na região. Nada podia ser mais infundado do que tal temor, pois o Timor, para seu próprio bem, poderia ter-se inspirado no vizinho que, na mesma época em que o país foi anexado, já havia expulsado os franceses e, depois deles, os EUA - a maior potência militar do pós-guerra.

O Timor teve muita ajuda da sua antiga potência colonial – Portugal – para se livrar da Indonésia. Teve e ainda tem a comunidade internacional, por meio das Nações Unidas, a conduzir o país pela mão no caminho da independência e da construção da democracia.  A despeito da resistência local, o Timor continuaria a ser massacrado sem o suporte da comunidade internacional. Foi um plebiscito organizado pelas Nações Unidas que minou qualquer resquício de condição que a Indonésia ainda tinha para permanecer aqui. As primeiras eleições do Timor após esta confirmação da independência foram completamente organizadas pela ONU, que ajudou, inclusive, o país a criar as instituições que hoje o estão governando. As eleições que acontecerão amanhã, dia 17 de março, serão apoiadas e monitoradas pela ONU, que conta com uma força militar internacional de estabilização, com 1300 soldados, uma polícia internacional – UNPOL - formada por um  contingente de 1600 policiais do mundo todo  ( Brasil, inclusive) e 1500 civis.

A organização e coesão que levaram ao sucesso dos vietnamitas, infelizmente, está muito longe da realidade timorense. Se esse fosse o meu país, eu estaria muito preocupada com o futuro dele. As duas principais instituições responsáveis por organizar as eleições – uma que regulamenta e fiscaliza, outra que implementa – têm péssimo nível de diálogo, não trocam informações e disputam espaço. O financiamento de campanha é parcamente regulamentado, e aqui não existe sistema financeiro, nem tributário. Se, no nosso Brasil, onde o tema é minuciosamente regulamentado, há uma economia sólida e diversificada; um sistema financeiro idem, que conta com tal nível de automação bancária que, nos idos dos anos 1990, já havia bancos privados com telas touch screen nos caixas eletrônicos,  o financiamento de campanha está na raiz da corrupção que nos flagela, imaginem isso num país onde não há sistema financeiro ou bancário, nem tributário. Isso significa que, no Timor, todos os pagamentos são feitos em dinheiro vivo, sem nenhum registro de qualquer movimentação financeira. Como também não há sistema tributário, não se sabe a origem dos recursos do governo – além dos royalties do petróleo, cuja renda vai para um fundo, do qual o governo recebe apenas um percentual.

Para deixar o horizonte ainda mais enevoado, o Timor Leste tem tido dificuldade de manter o Estado de Direito. Nas eleições passadas, a polícia e o exército se enfrentaram nas ruas, descontentes com o resultado. Quem amansou a pendenga foi a tropa de choque portuguesa – a Guarda Nacional Republicana - que, sintomaticamente, o cidadão comum timorense quer que permaneça aqui quando a ONU se for. A UNPOL a que me referi, ajudou a formar e treinar a Polícia Nacional do Timor Leste, hoje apenas monitora a situação e deve se retirar paulatinamente, se tudo der certo.

Sei que os momentos mais críticos da eleição serão a abertura e o encerramento da votação, e o início da contagem. Vou também monitorar a contagem nacional dos votos, quando serão somados os votos de todos os 13 distritos Timorenses, entre os dias 18 e 24. Tenho como equipamentos de trabalho um Prado Toyota 4x4, um rádio VHF, um notebook, um celular. Acima de tudo isso, meu anjo da guarda a me velar. Por via das dúvidas, conto também com os dois agentes da UNPOL - que vão passar o dia estacionados defronte – além do contingente do Exército Australiano, cujas instalações são adjacentes à zona eleitoral que escolhi para monitorar esses momentos críticos de que falei. Vai que...

domingo, 11 de março de 2012

Diferenças culturais e uma bad trip


Fui sábado à ilha de Atauro (pronuncia-se ataúro) que é, junto com a ilha de Jaco, no extremo leste de Timor, parte do país. A ideia era irmos um grupo grande, pois haveria um treinamento para o pessoal que vai trabalhar nas seções eleitorais, e eu sou parte da equipe que supervisiona esse treinamento. A morte de um dos candidatos a presidente, que foi o primeiro do Timor Independente em 1975, obrigou a uma mudança de planos. A equipe que treinaria o pessoal eleitoral adiou a viagem em cima da hora e, para não perdermos todo o planejamento, decidirmos ir assim mesmo, para supervisionar os locais de votação, a fim de verificar sua adequação para este fim. Como o trabalho diminuiu muito, não vi a necessidade de passar três dias lá, decidi voltar no sábado mesmo.






Minha decisão se revelou pra lá de acertada! A viagem se revelou uma experiência ‘mística’, um aprendizado sobre diferenças culturais.  Acordei às 6:30 da manhã do sábado para estar no porto às 8:00, hora em  que a ferryboat deveria zarpar. Havia uma fila gigantesca, a torrar sob o sol já ardente da manhã.  Fila é modo de falar, porque as pessoas se apinhavam na frente do portão, chapinhando pelo meio de poças d’água  remanescente da chuva da véspera, com os homens fumando como chaminés, esperando que o guarda autorizasse o embarque. Como tudo pode ficar pior, a multidão se apertou ainda mais para dar passagem a caminhões e minivans que queriam entrar na área do porto. Quando o embarque começou, meia hora depois daquela prevista para a partida, o guarda já tinha arrumado um pedaço de corda, que usava para distribuir chicotadas aleatoriamente, nas pessoas que se empurravam para entrar.
O ingresso mais caro - US$ 5,00 - é o único vendido para os malai (gringos) e, em tese, aplica-se à classe executiva. Mas, quando a gente chega lá, encontra os locais, que pagaram o ingresso de  US$ 2, instalados nas cadeiras! Os locais fumam o tempo todo, em qualquer lugar. Muitos fumam aqueles enjoativos cigarros de cravo, comuns por aqui,  tornando o mau hábito ainda mais incomodo aos outros. Fomos para o deck, na parte superior, para levar uma brisa. Lá, tivemos que sentar no chão – imundo – pois não há bancos, que eu tratei de forrar de folhas de caderno, pra sentar em cima. Assim que possível, arrumei um ‘trono’, onde ninguém podia se encostar em mim, e lá fiquei até o desembarque.


A noção asiática de privacidade é muito diferente da ocidental: as pessoas te encaram  como se você fosse um ET; prestam atenção na sua conversa; desconhecem ‘espaço pessoal’, aquele afastamento mínimo entre o nosso corpo e o dos outros, preenchendo com seus corpos qualquer espaço que encontrem entre duas pessoas.  Esse excesso de contato fica ainda pior com os péssimos hábitos de higiene de um povo que tem os piores indicadores de saúde do mundo. Desodorante é algo desconhecido, piolhos são abundantes, lava-se roupa só com água, tira-se a mosca e toma-se a sopa,  come-se com a mesma mão que passou pelo no chão, no qual se deitam como se fosse a própria cama. Já  vi crianças brincando na lama com porcos, pessoas dormindo com galinhas, ratazanas em toda parte... Claro que a elite é diferente mas, o povão, em geral, é assim.  As fotos que acrescento aqui ilustram minhas palavras.





Ao chegar lá, fomos à pousada onde deveríamos nos hospedar, de um australiano casado com uma indonésia. Tem bangalôs individuais e banheiro comum, que trata os dejetos por compostagem. Como reservamos e já estava lotado, o dono arrumou... barracas de acampamento, sob um telhado de palha, para nos receber! Eu, que ODEIO acampar, fiquei só imaginando que ‘maravilha’ aquelas barracas seriam ao sol, nesse calor infernal... As praias que vi não me pareceram melhores que as – poucas - que já vi por aqui. Convencida do acerto da minha decisão em voltar o mais rápido possível para a ‘civilização’, pedi ao oficial da Polícia das Nações Unidas que me levasse de carro para as escolas que serão seções eleitorais (a ONU não deixa a gente usar o transporte coletivo local, por motivos que lhes parecerão óbvios quando eu fizer a postagem que o tema merece) e fui fazer o meu trabalho. Verifiquei que tinham, água, luz, banheiros, paredes, pisos e janelas inteiras. Duas escolas primárias em bom estado, e uma secundária com quadra poliesportiva, num raio de 10 km, sinalizavam para um futuro melhor. Gastei uns dólares em artesanato enquanto esperava para voltar na mesma ferryboat que me levou. Voltei na agradável companhia de professores portugueses a serviço no Timor, com o suor me escorrendo pelas pernas. Que maravilha poder tomar um banho morno, usar produtos perfumados e vestir uma camisola bonita, pra dormir numa cama grande e branca, no ar condicionado!! Acampar, eu????? Sem chance, ADORO conforto!!!

quarta-feira, 7 de março de 2012

A guerra e a miséria de um povo

Meu blog andou meio abandonado...É que além de ter ficado umas três semanas com acesso meio errático à internet, andei trabalhando até no final de semana. Peço desculpas aos meus escassos, porém fieis e queridos leitores, pelas fotos prometidas da cerimônia ritual que não postei, pois as que tirei ficaram ruins demais para serem publicadas.

Hoje mudei de hotel, para um outro na frente da praia - que não é própria para banho porque a maré comeu a parte de areia, é  meio sujnha e tem crocodilos. Ao menos é o que uma plaquinha com a imagem do bicho indica. Entre o Timor e a Austrália tem tantos crocodilos que lá em Darwin só tem uma praia que dá pra se tomar banho de mar, e ainda assim porque o governo colocou uma rede isolando a baia da entrada dos 'bichinhos' - que são imensos, chegam a dois metros de comprimento! Esses animais são muito perigosos, mas preferem caçar de manhã cedinho e ao anoitecer. Por aqui tem muito o que eles 'lancharem', com o tanto de vacas e cabras ao léu, atrapalhando o trânsito.

Um país que nunca viveu uma guerra em seu território como o Brasil é, certamente, privilegiado. Os danos são muito mais profundos e duradouros do que a gente imagina. Além da destruição física, dos prédios e da infra-estrutura - vias, redes de eletricidade,c asas e do abastecimento dágua e esgoto - o maior dano mesmo é o humano. O Timor perdeu 1/4 da sua população durante a ocupação indonésia. Isso quer dizer que todas as familias perderam ao menos um membro! O pior, é que o dano humano vai além das mortes. Durante a ocupação indonésia, quem resistia era morto ou preso, mas quem não resistia, recebia alguma forma de subsidio do governo. Com isso, uma geração inteira cresceu sem trabalhar, simplesmente porque estava com a vida ganha. Enquanto isso,  a geração que era adulta quando a ocupação começou em 1974 foi morrendo na guerra ou de velhice. Quem tinha alguma habilitação profissional, tais como pescadores, carpiteiros, etc. virou passado e quem esta aqui não sabe fazer nada!  Pra piorar, os indonésios proibiram o povo de falar português, lingua que, apesar de ser a do colonizador, era a lingua franca num país cheio de diferentes idiomas e dialetos. A imposição do idioma indonésio criou uma dificuldade a mais, para o aprendizado e para a comunicação do povo, entre si e com o mundo. Hoje há duas linguas oficiais, o português e o tétum, além das outras linguas e dialetos locais. Mas ainda tem um monte de gente que fala indonésio e todos estão aprendendo inglês, para poderem se comunicar com o mundo. Isso traz muitas dificuldades para o aprendizado: tétum é a lingua mãe de boa parte, mas não de toda a população local, e tem muitas palavras incorporadas do português, mas com uma grafia adaptada. Como todos os idiomas de povos de tradição oral, não tem registro, isto é, não tem literatura, documentação ou produção técnico-científica.

Os timorenses são muto pequeninos. Eu pensava que, além de fatores etnicos, isso se devia ao fato de que os adultos de hoje foram crianças durante a guerra de resistência - que acabou em 1999- e, por isso, passaram muita fome e tiveram seu desenvolvimento prejudicado. Se isto certamente contribuiu muito para que a maioria dos homens adultos não tenham mais que 1,50m (!!) de altura, esta pequenez física também se deve a fatores culturais.Ocorre que os hábito alimentares locais são extremamente pobres em nutrientes, principalmente proteínas. Estamos em uma ilha, mas quem mais come a pequena produção local de pescado são os estrangeiros. Há muita criação de galinha, mas a maior parte delas morre de doenças e, no supermercado, encontramos o frango brasileiro que exportamos para a Ásia! Apesar de haver um imenso rebanho de búfalos, eles são usados apenas para puxar arados, não se ordenha as vacas nem se come a carne, não há matadouros nem beneficiamento de leite, nem ao menos artesanais. Os legumes da produção local são tão mirrados que, em outros países, nem seriam comercializados, enquanto que as frutas são coletadas e vendidas como a natureza as faz, sem qualquer melhoria. Assim, com uma alimentação pouco variada e pobre em nutrientes, a subnutrição é passada de uma geração a outra. Tendo em vista que a subnutrição prejudica também o desenvolvimento mental e a capacidade de aprendizado, imaginem o quanto esse povo precisa correr atrás do prejuízo para poder se desenvolver. Vai levar ao menos uma geração para o Timor Leste se recuperar...

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

muito trabalho!!

O blog passou uma semana sem publicações porque eu não tive sequer fim de semana! Trabalhei sábado e domingo, direto... Essa semana foi assinado o Pacto Nacional por Eleições Pacificas, com uma cerimônia cujas fotos anexo aqui. Os chefes tribais da última postagem também estiveram presentes, e confirmaram o prognostico de conflitos na eleição.

Democracia também se aprende! Na eleição passada o conflito aconteceu porque o povo daqui não entendeu porque o candidato mais votado não levou. Isso porque aqui, como no Brasil tem segundo turno e o povo daqui, que nunca havia votado antes, não entendia isso.  O candidato mais votado no primeiro turno da eleição passada foi o comandante do Exercito de Libertação Nacional, Francisco Guterres, com codinome Lu Olo, que em tempos de paz, se tornou deputado. O presidente atual, Ramos Horta, é também chamado de 'o diplomata' porque a ele coube angariar apoio da comunidade internacional para a independência do Timor Leste. Assim, com papeis diferentes e importância equivalente, um ficou aqui, roendo o osso de uma dura resistência, comandando a guerrilha que combatia as forças invasoras, enquanto o outro andava pelo mundo. O exército em peso apoiava o primeiro e não se conformou com o resultado. Foi preciso um acordo dos dois no segundo turno para que o diplomata se tornasse presidente.

A campanha eleitoral aqui é muito pobre, pois o país é muito pobre. O material é pouco e minguado, só são quinze dias de campanha e o jeito é fazer corpo a corpo. Parte do meu trabalho é ir a eventos da campanha para verificar se tudo ocorre dentro da lei e da ordem, como também fazer participar de eventos como o treinamento das pessoas que vão trabalhar na eleição e educação cívica para os eleitores. Outra imensa diferença é que aqui o financiamento de campanha é muito pouco regulamentado. Num país onde não tem sistema financeiro, isso pode gerar muito desvio de dinheiro, já que todos os pagamentos serão, necessariamente, feitos em dinheiro vivo! Vamos ver no que dá