O Timor teve muita ajuda da sua antiga potência colonial – Portugal – para se livrar da Indonésia. Teve e ainda tem a comunidade internacional, por meio das Nações Unidas, a conduzir o país pela mão no caminho da independência e da construção da democracia. A despeito da resistência local, o Timor continuaria a ser massacrado sem o suporte da comunidade internacional. Foi um plebiscito organizado pelas Nações Unidas que minou qualquer resquício de condição que a Indonésia ainda tinha para permanecer aqui. As primeiras eleições do Timor após esta confirmação da independência foram completamente organizadas pela ONU, que ajudou, inclusive, o país a criar as instituições que hoje o estão governando. As eleições que acontecerão amanhã, dia 17 de março, serão apoiadas e monitoradas pela ONU, que conta com uma força militar internacional de estabilização, com 1300 soldados, uma polícia internacional – UNPOL - formada por um contingente de 1600 policiais do mundo todo ( Brasil, inclusive) e 1500 civis.
A organização e coesão que levaram ao sucesso dos vietnamitas, infelizmente, está muito longe da realidade timorense. Se esse fosse o meu país, eu estaria muito preocupada com o futuro dele. As duas principais instituições responsáveis por organizar as eleições – uma que regulamenta e fiscaliza, outra que implementa – têm péssimo nível de diálogo, não trocam informações e disputam espaço. O financiamento de campanha é parcamente regulamentado, e aqui não existe sistema financeiro, nem tributário. Se, no nosso Brasil, onde o tema é minuciosamente regulamentado, há uma economia sólida e diversificada; um sistema financeiro idem, que conta com tal nível de automação bancária que, nos idos dos anos 1990, já havia bancos privados com telas touch screen nos caixas eletrônicos, o financiamento de campanha está na raiz da corrupção que nos flagela, imaginem isso num país onde não há sistema financeiro ou bancário, nem tributário. Isso significa que, no Timor, todos os pagamentos são feitos em dinheiro vivo, sem nenhum registro de qualquer movimentação financeira. Como também não há sistema tributário, não se sabe a origem dos recursos do governo – além dos royalties do petróleo, cuja renda vai para um fundo, do qual o governo recebe apenas um percentual.
Para deixar o horizonte ainda mais enevoado, o Timor Leste tem tido dificuldade de manter o Estado de Direito. Nas eleições passadas, a polícia e o exército se enfrentaram nas ruas, descontentes com o resultado. Quem amansou a pendenga foi a tropa de choque portuguesa – a Guarda Nacional Republicana - que, sintomaticamente, o cidadão comum timorense quer que permaneça aqui quando a ONU se for. A UNPOL a que me referi, ajudou a formar e treinar a Polícia Nacional do Timor Leste, hoje apenas monitora a situação e deve se retirar paulatinamente, se tudo der certo.
Sei que os momentos mais críticos da eleição serão a abertura e o encerramento da votação, e o início da contagem. Vou também monitorar a contagem nacional dos votos, quando serão somados os votos de todos os 13 distritos Timorenses, entre os dias 18 e 24. Tenho como equipamentos de trabalho um Prado Toyota 4x4, um rádio VHF, um notebook, um celular. Acima de tudo isso, meu anjo da guarda a me velar. Por via das dúvidas, conto também com os dois agentes da UNPOL - que vão passar o dia estacionados defronte – além do contingente do Exército Australiano, cujas instalações são adjacentes à zona eleitoral que escolhi para monitorar esses momentos críticos de que falei. Vai que...
Sucesso Ludmilla!!!
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