Meu blog andou meio abandonado...É que além de ter ficado umas três semanas com acesso meio errático à internet, andei trabalhando até no final de semana. Peço desculpas aos meus escassos, porém fieis e queridos leitores, pelas fotos prometidas da cerimônia ritual que não postei, pois as que tirei ficaram ruins demais para serem publicadas.
Hoje mudei de hotel, para um outro na frente da praia - que não é própria para banho porque a maré comeu a parte de areia, é meio sujnha e tem crocodilos. Ao menos é o que uma plaquinha com a imagem do bicho indica. Entre o Timor e a Austrália tem tantos crocodilos que lá em Darwin só tem uma praia que dá pra se tomar banho de mar, e ainda assim porque o governo colocou uma rede isolando a baia da entrada dos 'bichinhos' - que são imensos, chegam a dois metros de comprimento! Esses animais são muito perigosos, mas preferem caçar de manhã cedinho e ao anoitecer. Por aqui tem muito o que eles 'lancharem', com o tanto de vacas e cabras ao léu, atrapalhando o trânsito.
Um país que nunca viveu uma guerra em seu território como o Brasil é, certamente, privilegiado. Os danos são muito mais profundos e duradouros do que a gente imagina. Além da destruição física, dos prédios e da infra-estrutura - vias, redes de eletricidade,c asas e do abastecimento dágua e esgoto - o maior dano mesmo é o humano. O Timor perdeu 1/4 da sua população durante a ocupação indonésia. Isso quer dizer que todas as familias perderam ao menos um membro! O pior, é que o dano humano vai além das mortes. Durante a ocupação indonésia, quem resistia era morto ou preso, mas quem não resistia, recebia alguma forma de subsidio do governo. Com isso, uma geração inteira cresceu sem trabalhar, simplesmente porque estava com a vida ganha. Enquanto isso, a geração que era adulta quando a ocupação começou em 1974 foi morrendo na guerra ou de velhice. Quem tinha alguma habilitação profissional, tais como pescadores, carpiteiros, etc. virou passado e quem esta aqui não sabe fazer nada! Pra piorar, os indonésios proibiram o povo de falar português, lingua que, apesar de ser a do colonizador, era a lingua franca num país cheio de diferentes idiomas e dialetos. A imposição do idioma indonésio criou uma dificuldade a mais, para o aprendizado e para a comunicação do povo, entre si e com o mundo. Hoje há duas linguas oficiais, o português e o tétum, além das outras linguas e dialetos locais. Mas ainda tem um monte de gente que fala indonésio e todos estão aprendendo inglês, para poderem se comunicar com o mundo. Isso traz muitas dificuldades para o aprendizado: tétum é a lingua mãe de boa parte, mas não de toda a população local, e tem muitas palavras incorporadas do português, mas com uma grafia adaptada. Como todos os idiomas de povos de tradição oral, não tem registro, isto é, não tem literatura, documentação ou produção técnico-científica.
Os timorenses são muto pequeninos. Eu pensava que, além de fatores etnicos, isso se devia ao fato de que os adultos de hoje foram crianças durante a guerra de resistência - que acabou em 1999- e, por isso, passaram muita fome e tiveram seu desenvolvimento prejudicado. Se isto certamente contribuiu muito para que a maioria dos homens adultos não tenham mais que 1,50m (!!) de altura, esta pequenez física também se deve a fatores culturais.Ocorre que os hábito alimentares locais são extremamente pobres em nutrientes, principalmente proteínas. Estamos em uma ilha, mas quem mais come a pequena produção local de pescado são os estrangeiros. Há muita criação de galinha, mas a maior parte delas morre de doenças e, no supermercado, encontramos o frango brasileiro que exportamos para a Ásia! Apesar de haver um imenso rebanho de búfalos, eles são usados apenas para puxar arados, não se ordenha as vacas nem se come a carne, não há matadouros nem beneficiamento de leite, nem ao menos artesanais. Os legumes da produção local são tão mirrados que, em outros países, nem seriam comercializados, enquanto que as frutas são coletadas e vendidas como a natureza as faz, sem qualquer melhoria. Assim, com uma alimentação pouco variada e pobre em nutrientes, a subnutrição é passada de uma geração a outra. Tendo em vista que a subnutrição prejudica também o desenvolvimento mental e a capacidade de aprendizado, imaginem o quanto esse povo precisa correr atrás do prejuízo para poder se desenvolver. Vai levar ao menos uma geração para o Timor Leste se recuperar...
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