Fui sábado à ilha de Atauro (pronuncia-se ataúro) que é, junto com a ilha de Jaco, no extremo leste de Timor, parte do país. A ideia era irmos um grupo grande, pois haveria um treinamento para o pessoal que vai trabalhar nas seções eleitorais, e eu sou parte da equipe que supervisiona esse treinamento. A morte de um dos candidatos a presidente, que foi o primeiro do Timor Independente em 1975, obrigou a uma mudança de planos. A equipe que treinaria o pessoal eleitoral adiou a viagem em cima da hora e, para não perdermos todo o planejamento, decidirmos ir assim mesmo, para supervisionar os locais de votação, a fim de verificar sua adequação para este fim. Como o trabalho diminuiu muito, não vi a necessidade de passar três dias lá, decidi voltar no sábado mesmo.
Minha decisão se revelou pra lá de acertada! A viagem se revelou uma experiência ‘mística’, um aprendizado sobre diferenças culturais. Acordei às 6:30 da manhã do sábado para estar no porto às 8:00, hora em que a ferryboat deveria zarpar. Havia uma fila gigantesca, a torrar sob o sol já ardente da manhã. Fila é modo de falar, porque as pessoas se apinhavam na frente do portão, chapinhando pelo meio de poças d’água remanescente da chuva da véspera, com os homens fumando como chaminés, esperando que o guarda autorizasse o embarque. Como tudo pode ficar pior, a multidão se apertou ainda mais para dar passagem a caminhões e minivans que queriam entrar na área do porto. Quando o embarque começou, meia hora depois daquela prevista para a partida, o guarda já tinha arrumado um pedaço de corda, que usava para distribuir chicotadas aleatoriamente, nas pessoas que se empurravam para entrar.
O ingresso mais caro - US$ 5,00 - é o único vendido para os malai (gringos) e, em tese, aplica-se à classe executiva. Mas, quando a gente chega lá, encontra os locais, que pagaram o ingresso de US$ 2, instalados nas cadeiras! Os locais fumam o tempo todo, em qualquer lugar. Muitos fumam aqueles enjoativos cigarros de cravo, comuns por aqui, tornando o mau hábito ainda mais incomodo aos outros. Fomos para o deck, na parte superior, para levar uma brisa. Lá, tivemos que sentar no chão – imundo – pois não há bancos, que eu tratei de forrar de folhas de caderno, pra sentar em cima. Assim que possível, arrumei um ‘trono’, onde ninguém podia se encostar em mim, e lá fiquei até o desembarque.
A noção asiática de privacidade é muito diferente da ocidental: as pessoas te encaram como se você fosse um ET; prestam atenção na sua conversa; desconhecem ‘espaço pessoal’, aquele afastamento mínimo entre o nosso corpo e o dos outros, preenchendo com seus corpos qualquer espaço que encontrem entre duas pessoas. Esse excesso de contato fica ainda pior com os péssimos hábitos de higiene de um povo que tem os piores indicadores de saúde do mundo. Desodorante é algo desconhecido, piolhos são abundantes, lava-se roupa só com água, tira-se a mosca e toma-se a sopa, come-se com a mesma mão que passou pelo no chão, no qual se deitam como se fosse a própria cama. Já vi crianças brincando na lama com porcos, pessoas dormindo com galinhas, ratazanas em toda parte... Claro que a elite é diferente mas, o povão, em geral, é assim. As fotos que acrescento aqui ilustram minhas palavras.
Ao chegar lá, fomos à pousada onde deveríamos nos hospedar, de um australiano casado com uma indonésia. Tem bangalôs individuais e banheiro comum, que trata os dejetos por compostagem. Como reservamos e já estava lotado, o dono arrumou... barracas de acampamento, sob um telhado de palha, para nos receber! Eu, que ODEIO acampar, fiquei só imaginando que ‘maravilha’ aquelas barracas seriam ao sol, nesse calor infernal... As praias que vi não me pareceram melhores que as – poucas - que já vi por aqui. Convencida do acerto da minha decisão em voltar o mais rápido possível para a ‘civilização’, pedi ao oficial da Polícia das Nações Unidas que me levasse de carro para as escolas que serão seções eleitorais (a ONU não deixa a gente usar o transporte coletivo local, por motivos que lhes parecerão óbvios quando eu fizer a postagem que o tema merece) e fui fazer o meu trabalho. Verifiquei que tinham, água, luz, banheiros, paredes, pisos e janelas inteiras. Duas escolas primárias em bom estado, e uma secundária com quadra poliesportiva, num raio de 10 km, sinalizavam para um futuro melhor. Gastei uns dólares em artesanato enquanto esperava para voltar na mesma ferryboat que me levou. Voltei na agradável companhia de professores portugueses a serviço no Timor, com o suor me escorrendo pelas pernas. Que maravilha poder tomar um banho morno, usar produtos perfumados e vestir uma camisola bonita, pra dormir numa cama grande e branca, no ar condicionado!! Acampar, eu????? Sem chance, ADORO conforto!!!
Caramba Ludmila, que perrengue!!! rs
ResponderExcluirEstou acompanhando seus posts semanalmente, já que nossas conversas no Manara estão, por enquanto, em stand by.
Beijos!