Eu havia sugerido aos colegas aqui um programa cultural, já que a gente só tem saído para comer. A proposta foi uma visita ao museu da Comissão de Acolhimento, Verdade e Conciliação - CAVR, criada para apurar e registrar as violações aos direitos humanos no período de 1974 - 1999, facilitar a reconciliação comunitária para os crimes menos graves, fazer relatórios do trabalho, apresentar conclusões e fazer recomendações. A CAVR produziu um relatório de 2 800 páginas, denominado Chega! Como já contei aqui, a Indonésia invadiu o país e o dominou durante 25 anos, com mão de ferro, até que a independência fosse confirmada através de consulta popular em 1999. Foi um periodo de terror, com sistemáticas violações dos direitos humanos dos timorenses. Parlamentares alemães, em visita ao país, relataram que "a ilha inteira parece uma prisão, ninguém sorri." E hoje, o povo timorense é tão sorridente...
O museu da CAVR funciona numa antiga prisão da época da opressão indonésia. É como se os porões da ditadura brasileira fossem abertos à visitação pública, com fotos e relatos das vitimas. Emocionante o relato de uma senhora que teceu em seu tais (aquele tecido colorido que se usa aqui ao redor da cintura) os nomes dos mortos em um massacre, para não se esquecer deles. Os mais chocantes são os relatos das mulheres e crianças. Estupro era arma de guerra, usada sistematicamente, tanto para aterrorizar as comunidades quanto para punir as que aderiam à guerrilha de resistência. Numa sociedade tão machista quanto a timorense, as mulheres sofriam multiplamente: sistematicamente estupradas pelos soldados, eram frequentemente renegadas por suas familias e maridos, e tinham que criar os filhos que resultavam dos estupros - que também eras discriminados. As crianças, principalmente as meninas, eram sequestradas pelos soldados indonésios para aterrorizar suas familias. Diziam que as levariam para a escola, mas as levavam para trabalhar pra eles. No caso das meninas ainda tinha a escravidão sexual. Para piorar, os invasores destruiam plantações, envenenavam depósitos de água e comida, obrigavam as comunidades a sair de suas terras, jogavam napalm para destruir as florestas que abrigavam os guerrileiros da resistência.
Uma das 'alas' do museu tem nome autoexplicativo - celas da morte: celas de 2,5m², com frestas ou sem nenhuma abertura, escuras como breu, para funcionarem como solitárias ou como lugares de tortura. Na entrada, o retrato da atrocidade: uma foto de uma mulher seminua, com olhos vendados e deitada no chão, toda machucada das torturas e sendo pisada pelas botas dos soldados. Vê-se que puseram uma calcinha na moça para a foto, pois a peça está imaculadamente limpa, enquato a moça está cheia de feridas. O pudor de vestir-lhe uma calcinha nos parece ainda mais falso, hipócrita e descabido, diante de tanta ruindade. Pensar que o sujeito que passou o dia fazendo aquilo volta pra casa, abraça a familia e dorme, como se tivesse estado a escrever relatórios! Triste é saber que a resistência também foi cruel, embora em escala muito menor.
Sei que eu chorei do instante em que entrei até a hora de sair, soluçava tanto que não conseguia nem falar. Meus colegas também ficaram abalados, um deles tremia da cabeça aos pés, os outros cabisbaixos e pensativos... Essa página da história timorense foi terrível demais para cair no esquecimento, precisa ser conhecida, por mais que abale as emoções da gente. Só assim ela não se repete.
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