quinta-feira, 22 de março de 2012

O primeiro turno das eleições presidenciais : uma demonstração de civismo

O primeiro turno das eleições presidenciais timorenses finalmente aconteceu. No  reino da precariedade absoluta, o povo deu um show de civismo, além de mostrar uma resiliência ímpar. Foram muitos os percalços e imprevistos, mas nada impediu que as eleições ocorressem em paz. Começou pelo mau tempo. Num país onde a infra-estrutura é precária, São Pedro não ajudou nem um pouco: chuva forte e ventania arrancaram telhados e fizeram com que faltasse luz na maior parte do país. Eu mesma, sem ar condicionado, quase não dormi - e foi preciso acordar às cinco da manhã para estar às seis na seção eleitoral, monitorando a organização previa dos trabalhos, já que a seção abriria para o povo votar das sete da manhã às três da tarde. Pois, acreditem que os trabalhos foram iniciados à luz de velas, enquanto o sol nascia! Mais ainda,aqui voto não é obrigatório. Mesmo assim, as pessoas andavam quilometros para estar na fila às sete da manhã. Chovia bastante, mas os eleitores esperavam na fila pra votar, às vezes de forma mais desorganizada, quando a polícia local intervinha para ajudar a organizar os trabalhos. Faltou boletim de voto no meio da manhã em algumas zonas eleitorais, mas ainda assim, as pessoas esperaram calmamente os boletins chegarem para votar. As escolas públicas, como no Brasil, foram escolhidas como locais de votação. Muitas estão em péssimo estado de conservação, com janelas quebradas, banheiros inacreditáveis de tão sujos e esculhambados, sem energia, mas ainda assim, a votação ocorreu de forma ordeira e pacífica, com os eleitores, exibindo orgulhosamente o dedo sujo da tinta que indicava que eles já haviam votado.








Ao final da votação, veio a apuração. Vagarosa, mas calma e ordeira. Em vários locais, o povo pediu pra ver a apuração, e a contagem dos votos saiu das salas para as varandas das escolas. Controle social,  da melhor qualidade: o que acontece às vistas de toda a gente fica a salvo de manipulações, fraudes, subterfúgios. A contagem dos votos foi aberta, pra quem quisesse ver. Quando havia votos cuja validade era duvidosa, eles eram devidamente encaminhados para a decisão da Comissão Nacional de Eleições, cujos trabalhos monitorei. A contagem entrou pela noite a dentro. Na zona eleitoral onde cobri a abertura e o encerramento da votação, às onze da noite ainda estavam contando a terceira das seis urnas. E o povo lá, participando. Foi bonito de ver.







Os observadores internacionais que vieram cobrir as eleições - da Comunidade dos Países de Lingua Portuguesa, da Austrália, da China e  Japão, dos EUA - escreveram que o processo eleitoral timorense decorreu de acordo com os princípios do Estado Democrático de Direito.



Os problemas ocorreram na contabilização dos votos. A contagem aqui obedece a um sistema de pirâmide: contam-se os votos das zonas eleitorais, após misturarem-se os votos de todas as urnas de todas as seções. A contagem é registrada numa ata e todas as atas dos centros de votação são somadas, apurando-se as atas dos distritos e, por fim a ata nacional, que contabiliza as somas dos distritos. aí a coisa ficou complicada e vi a hora do caldo engrossar. É que apareceu a fragilidade das instituições, onde seus membros não tiveram coragem de exercer suas atribuições institucionais  e legais, e levaram os problemas para serem resolvidos na arena política. Democracia também se aprende, e as instituições daqui deverão se fortalecer com o tempo e a prática. Ainda teremos segundo turno dia 17 de abril. Mais ainda, as eleições parlamentares, que são as mais sensíveis, ocorrem no segundo semestre. De qualquer modo, o resultado foi anunciado ontem às nove da noite, pela Comissão Nacional de Eleições, em coletiva de imprensa, e o país amanheceu em paz.



Um comentário:

  1. Que bom que, apesar dos problemas, tudo está encaminhando.

    Estou com saudades dos nossos almoços no Manara, nunca mais fui lá.

    Beijos e sucesso!

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