Dois dias depois da última postagem, aprendi duas palavras tetum (a língua local) malai bulak ou ‘gringa maluca’. Depois de passar um dia dirigindo, sem nenhum incidente, em estradas mais adequadas ao trânsito de jumentos que ao de veículos motorizados, eu estava aqui em Dili, a 300m da cidadela da ONU, dirigindo o micro-ônibus de 14 lugares que nos coube para o trabalho e uso pessoal e, quando fui manobrar pra fazer o retorno, atolei o carro num mini-pântano; um lamaçal insidiosamente coberto por uma grama alta e viçosa. Primeiro, um pneu e depois, graças à ‘ajuda’ recebida, o outro... Liguei para o socorro mecânico da ONU, e debaixo de um sol inclemente e um poeirão dos infernos, esperei pelo socorro. Em 15 min chega um caminhão gigantesco, com 4 caras, dirigido por um indiano que fumava um cigarro mágico – não acabava nem caía do canto da boca! Ele me mandou parar o trânsito para o caminhão poder rebocar o micro-ônibus para fora do atoleiro sem derrubar o poste. Lá fui eu, descaradamente malai (gringa), para o meio da rua, parar as microlets (as vans de transporte coletivo locais, dignas de uma postagem à parte). Mico não, gorila mesmo; fiquei lá, no meio da rua, feito manobrista de avião, balançando os braços e berrando pára! Parei o trânsito e só ouvi o povo falando ‘malai bulak!!’
Eu sou uma gringa maluca, mas quem leva fé nas tripas de um porco são eles! Vou começar do começo: já contei aqui que o Timor Leste está engatinhando na construção da democracia e as eleições de 2007, organizadas e realizadas pela ONU, foram seguidas por um violento conflito entre a polícia e as forças armadas, descontentes com o resultado. Contei também que o conflito foi contido pela Guarda Nacional Republicana - GNR, força policial portuguesa, famosa lá e cá pela truculência, bastante temida pelos arruaceiros timorenses. Para prevenir novas ocorrências, agora que são os timorenses que organizam a eleição, sob a monitoria da ONU, o governo local articulou, com todas as facções políticas locais, o Pacto Nacional por uma Eleição Pacífica. Faz parte do Pacto a realização de uma cerimônia, de caráter animista, por chefes tribais locais, que tocam tambores, entoam cânticos e sacrificam animais (dessa vez, algumas galinhas e um porco), cujo sangue é recolhido em um coco e bebido por todos os candidatos (ou seus representantes). Antes de oferecer o sangue aos políticos, os chefes leram a sorte nas tripas do porco, ‘prevendo’ que a eleição não vai ser muito pacífica, não...
Profecia que já se cumpre: ontem de madrugada foram jogados coquetéis molotov no prédio do Secretariado Técnico para a Administração Eleitoral – STAE, órgão encarregado de organizar as eleições. Ninguém foi ferido e nada foi danificado, um dos coquetéis quebrou antes de queimar. Mas, isso já bastou para a ONU chamar a equipe para uma reunião de urgência e reforçar as recomendações de segurança, além de por a GNR a postos. Hoje, teve uma procissão na avenida da praia, onde fica o escritório da equipe de suporte eleitoral da ONU, que me fez trabalhar recordando os hinos religiosos do colégio de freiras da minha infância. Saí de lá assim que a procissão e a chuva passaram. O trânsito estava pior que o normal, mas tudo me pareceu bem. Fiquei aqui no hotel, quietinha no meu quarto, onde jantei sozinha, vendo TV australiana. Soube mais tarde que a procissão terminou em pancadaria, com pedras voando pelos ares e todo mundo apavorado! Meu anjo da guarda me sobrevoou hoje! Para que ele continue me guardando, vou continuar bem comportada, saindo à rua apenas com o grupo. Quando eu voltar pro Brasil, tiro o atraso e caio na farra!! Me aguardem.





Veja pelo lado bom da coisa: Vais ficar fera no volante! rsrs...
ResponderExcluirSaudades,
Beijos!